Jer., 23
Fogo. Era fogo que ardia na garganta de António. A faca de mato atravessou-lhe o pescoço de uma ponta a outra e ficou preso no armário atrás. XXXX tinha saído pouco depois do acto consumado. António, demorou uma boa meia hora recuperar do primeiro choque e tinha percebido que poucas esperanças lhe restavam. A sua sorte era que a faca era extremamente afiada e entrou na carne como se fosse entrar em manteiga, deixando razoavelmente intactos os tecidos em redor da punção. O sangue não era demasiado e aparentemente estava seco. O António tento lembrar alguma coisa das lições do curso de medicina que deixou a meio. Tudo que lhe vinha a cabeça era um cartaz de anatomia com as artérias do pescoço.

- Que se foda as artérias – sussurrou o António e agarrando no cabo da faca com as duas mãos inclinou-se energicamente para frente libertando-se do móvel. ‘Se tirar esta merda do pescoço perco o sangue que me resta.’ Cambaleando, com a enorme faca no pescoço desceu para a rua para apanhar um táxi. Mas a rua estava praticamente deserta. Contudo, em frente do prédio vizinho estava estacionada uma acelera dos rapazes da Telepizza a trabalhar. O António não tinha tempo para perder. – Daqui até a Sta. Maria são 2 kms – pensou – Vamos lá motita.
O António acordou entubado ao som do seu batimento cardíaco nos cuidados intensivos do Hospital. – Sou um filho-da-puta de sete vidas – pensou com um sorriso e sucumbiu no sono.


