Friday, December 30, 2005

Jer., 23

Jeremias, 23: “A minha palavra não é como o fogo?” – diz o Senhor.

Fogo. Era fogo que ardia na garganta de António. A faca de mato atravessou-lhe o pescoço de uma ponta a outra e ficou preso no armário atrás. XXXX tinha saído pouco depois do acto consumado. António, demorou uma boa meia hora recuperar do primeiro choque e tinha percebido que poucas esperanças lhe restavam. A sua sorte era que a faca era extremamente afiada e entrou na carne como se fosse entrar em manteiga, deixando razoavelmente intactos os tecidos em redor da punção. O sangue não era demasiado e aparentemente estava seco. O António tento lembrar alguma coisa das lições do curso de medicina que deixou a meio. Tudo que lhe vinha a cabeça era um cartaz de anatomia com as artérias do pescoço.


- Que se foda as artérias – sussurrou o António e agarrando no cabo da faca com as duas mãos inclinou-se energicamente para frente libertando-se do móvel. ‘Se tirar esta merda do pescoço perco o sangue que me resta.’ Cambaleando, com a enorme faca no pescoço desceu para a rua para apanhar um táxi. Mas a rua estava praticamente deserta. Contudo, em frente do prédio vizinho estava estacionada uma acelera dos rapazes da Telepizza a trabalhar. O António não tinha tempo para perder. – Daqui até a Sta. Maria são 2 kms – pensou – Vamos lá motita.

O António acordou entubado ao som do seu batimento cardíaco nos cuidados intensivos do Hospital. – Sou um filho-da-puta de sete vidas – pensou com um sorriso e sucumbiu no sono.

Tuesday, December 27, 2005

A obra

Estava eu na minha cama rodeado de uma pilha de papéis quando o António, o maior intelectual que conheci tocou à porta. Bem pronto, não era uma pilha, eram três e o António também não tocou. Na verdade, ia desfazendo o botão da campainha com uma tentativa tresloucada de tocar Another Brick in the Wall dos Pink Floyd em “campainhês”. Tenho que reconhecer que sempre foi melhor do que quando ensaiou a Aída do Verdi durante quase um mês, ensaios que acabaram de uma forma dramática com um curto circuito que lhe deixou os cabelos literalmente em pé e que rebentou com os fusíveis do meu andar, causando o desespero da minha vizinha que estava a ver o último episódio de uma novela que devia ser muito interessante. Pelo menos a avaliar pelos gritos que ouvi devia ser mesmo muito interessante. Fiquei a pensar que devia ter visto a novela. O António vinha enrubescido, como se os plátanos se reflectissem na sua cara de uma forma quentinha e duradoura. Reconheci-lhe as cores do amor, a perfeição do sentimento, a honestidade das pupilas dilatadas. Ah o amor, fulgor que tudo embeleza e ofusca, que nos faz voar em qualquer vazio como gaivotas, que nos faz correr como garranos selvagens em qualquer campo disponível na nossa imaginação….
Estava eu perdido nas minhas considerações quando ouvi ao longe o António: “olha lá, andaste a fumar, parece que estás meio parvo!”. Sacudi um pouco a cabeça para colocar as ideias no lugar e sentei-me. Então ele disse-me a coisa mais inesperada do mundo: “Preciso que me escrevas um poema de amor para a Ritinha”. Ia-me dando uma coisa má! Eu, um poema de amor para uma peixeira de 130 kg? Mais depressa comia uma embalagem de Nestum de figo! Mas os olhos tristes do António revelaram a sua impotência em causa própria. O maior intelectual que conheci pessoalmente estava embatucado, empastelado, atascado, entupido de amor. E precisava de mim. E foi assim que surgiu a minha primeira obra prima, o quarto papel que hoje guardo emoldurado numa mica de dossier em cima da minha guitarra eléctrica. Rezava assim:


EM BUSCA DE TI

Tal como uma onda
Beijo as praias à tua procura
Tal como o vento
Chamo por ti
Tal como a chuva
Te acaricio
Tal como a trovoada
Te assusto
Tal como o sol
Te faço florescer
Tal como um cego
Tu não me vês
Tal como um mudo
Eu não te chamo
Tal como o sol e a lua
Estamos sempre separados


Bem, ainda me lembro da confusão! O António pensou que lhe estava a agoirar o namoro. Lá lhe expliquei que não era nada disso mas que estava a tentar explicar como era o amor entre almas gémeas que habitam os lados opostos da vida. Ele florescia à noite, nos bares e tascas rascas da cidade, ela nascia de madrugada nos pregões de uma Lisboa que amanhece. É como eu sempre disse. ligações iónicas, átomos de cargas contrárias atraiem-se.

Sofia Trovela

Monday, December 26, 2005

Plátanos

A espera de um sinal verde, levado pela dor pulsante dos arranhões da Ritinha, António, distraído, murmurou só para si: foi uma boa keka…

A satisfação que recordação trouxe, estampou um sorriso de uma criança na cara do António. Com as mãos nos bolsos das calças ele atravessou a Av. de Liberdade a assobiar. A avenida estava coberta de folhas, lágrimas castanhas dos plátanos que choram eras passadas. De chorar, António nada sabia. Ainda, nada sabia…

Por maldade, ou talvez não

Por maldade, ou talvez não, o óvulo é a maior célula do corpo humano - feminimo entenda-se!

Sobre o vale de Ritinha, fundo-escuro-como-mundo, debatia-se o espermatozóide A1002127, orientado pelo cheiro, como se de um insecto se tratasse, irremediavelmente perdido pelas feromonas que o chamavam!... Aquele óvulo, gerado ainda Rita era um embrião de um tamanho de um feijão, no utero de D. Madalena, estava-lhe guardado e, num truque do destino, tinha ficado armadilhado pelas suas feromonas.

Fazia 25 anos que R117 esperava ansiosamente pela sua cara-metade genética, de um passado incerto escarrado num qualquer penso higiénico, tinha agora, entre moléculas de controlo, um futuro radioso para escrever.

Ele nadou ansiosamente, activamente, desperadamente, cego, mas direito ao seu óvulo... Não que fosse dificil à menor célula do corpo humano (masculino, entenda-se) encontrar a maior célula do corpo humanao (feminino, entenda-se), mas a competição era muita...1002126 concorrentes, para ser exacto. E aqui, nesta corrida, não há prémio para o segundo!

Chegou exausto,com a energia da ultima molécula de ATP, a alimentar as suas mitocondrias. Resistira à corrida, fora o primeiro a chegar!!! E agora?

Bateu suavemente no poro nuclear, enfiando a cabeça pela abertura entreaberta, e perguntou timidamente - "Carga genética, para o óvulo, 117? R? é aqui?!"

Tipo seringa hipódermica, a injectar sonhos na veia de um incauto perdedor, descarregou a sua carga. Junto ao núcleo de 117R, as duas membranas nucleares desfizeram-se, em castelo, pela obra das cortantes lamínas nucleares.

Agora, cada um dos seus 23 cromossomas,estava fora da sua cápsula espacial, e extendendo a cromatina, em apertado controlo do batalhão de Cyclinas (Cdks), preparam-se para emparelhar, A com T, C com G, como numa dança de cadeira:

ATGCGGAATC
::::::::::::::::
TACGCCTTAG

A festa foi alegre e até teve música. Afinal, o exército das CDks era ... uma banda militar... Ao som dos acordes do controlo, todos os cromossomas se misturaram frenéticamente num crossing-over namométrico. No fim, já cansados, preparam-se para um novo ser, para SER!

A meiose, estava a chegar!...

Enviado por St&Co. como comentário.

Saturday, December 24, 2005

XXXX

Mas XXXX não foi para casa, esperou!Dias, a fio, no frio dos dias, e no quente das noites dos outros que entravam apressados, meio a medo, no autocarro para o outro lado na noite - lado errado? ou certo! - já tanto lhe fazia. Há muito que o vinho tinha secado nas suas calças, e agora apenas uma nódoa de Taninos roxos, restava como testemunha da, outrora intensa, actividade Reichiana... Mas estava morta, extinta! e sem qualquer possibilidade de milagre genético!

António, assobiava, feliz, equanto se dirigia para a paragem da Rotunda do Marquês. Sade? morrera! Viram-no pela ultima vez, reflectido em dois corpos suados, sobre o brilho da luz de mercurio, que entrava da rua, pela janela do quarto. Caíra para o lado, desamparado, e agora apenas aquele livro desbotado na estante era a prova de que algum dia tinha existido:- Finalmente, livrei-me da raiz quadrada do menos um - pensava António, em voz alta, entre dois passos apressados. A noite tinha-lhe corrido, bem! Depois da viagem ao lado imaginário, e de se perder nos vales e montes de Ritinha, graaaande como o mundo!

Tinha-a deixado, já o sol raiva, no Mercado da Ribeira, entre os Robalos e as Tainhas acabados de descarregar dos barcos de pesca. Ainda a ouvira ao longe quando lhe acenou do cimo do Bairro Alto: -"Oh, Freguêeeesa, ólha ó peeeixe f'esquíiinhoooo";- "qual meu bacalhau, qual quê, ólha ó peeeixe f'esquíiinhoooo",

- Tenho que contar ao XXX - pensou António - O gajo vai roer-se quando souber onde fica o lado errado da noite!

Enviado pelo St&Co. como comentário.

Thursday, December 22, 2005

Polvo?

A célula mais pequena do corpo humano é o espermatozóide. Tendo os tomates bem frescos, produzimos uns 1000 bicharocos destes por segundo. Pelo frio que estava na rotunda, a minha taxa de produção deveria estar a dobrar. A cadeira de praia, que montei no topo das escadas que elevam o monumento, não ajudava guardar o pouco calor que me restava. Para me confortar, e para desacelerar a fabricação da bicharada, enterrei o termo do Glühwein entre as minhas pernas e desapertei a tampa. O cheiro do vinho quente com especiarias fez as estrelas brilharem mais alto e, simultaneamente, convenceu-me que a minha decisão estava certa. Esta noite não era para passar no gingance do Bairro, mas sim cá na rotunda, sozinho. Aproveitando a ausência de Antónios, Ritinhas e outra gente estranha que se agita com o fim macabro do louva-a-deus macho que foi, literalmente, comido pela sua miúda, submergi na bruma das minhas memórias. Deve ter sido o vinho e a crescente pressão nas partes baixas que me fizeram lembrar no polvo. Animal pouco atraente mesmo para os mais atrevidos. (e nisso, penso, até o Marquês de Sade (1740-1814) estaria de acordo) Contudo, o caso muda de figura, tanto para nós como para o animal, se o polvo estiver cozido. Trata-se um polvo grande, diga-se passagem. Polvos grandes têm ventosas grandes, conchas perfeitas para albergar a língua de qualquer gourmet. A sensação de enfiar a lingua na ventosa de um polvo (cozido) é ambígua, por um lado é tranquilizante, o típico estou-em-casa-estou-seguro sensação mas, por outro lado, é inquietante... De repente as ventosas do polvo transformaram-se num umbigo. Feminino. Franzido. Franzido? Sim, franzido. Quem é que, no seu perfeito juízo, tem um umbigo franzido? Não tenho tempo para responder a pergunta porque o umbigo transforma-se numa boca de mil dentes-facas a rasgar a minha carne. Tento tapar a ferida infinita, mas o sangue escorre pelas minhas pernas. Sangue? Oh, merda, entornei o termo. Estou lavado em vinho quente. Está na hora de ir para casa.

Monday, December 19, 2005

A noite ia já escura

A noite ia já escura sobre o brilho das estrelas, quando o grupo começou a debandar. António acercou-se de Ritinha, e como dois números primos (divisiveis apenas pela unidade e por eles próprios), falou-lhe ao ouvido do seu passado incerto, e da promessa de um futuro radioso:

- Sabes, Ritinha - murmurou timidamente, dando um passo em frente para o azul do mar-abismo, nos olhos de Rita.- A minha vida é como parte imaginária de um número complexo,a raiz quadrada do menos um!, eu...

- Raiz quadrada de menos um!? Como é isso? - perguntou Rita- Se bem me lembro, "isso" não existe!

- Bem vês tu, o que não vês, num número complexo, a parte imaginária é "isso", o meu "eu" - Sussurou António - Vem comigo? à parte imaginária!

Era já de madrugada, quando ambos apanharam o primeiro autocarro para o lado errado da noite.

Colocado originalmente por S&Bds como comentário.

Saturday, December 17, 2005

O carro

Corremos até ao carro. Bem, se calhar “correr” não é o termo mais certo, talvez “andar apressado” seja a expressão mais realista, porque a noite estava fria e também não éramos propriamente do INEM, ainda podíamos fazer uma entorse, que diabo! Quando chegámos às imediações da ocorrência deparámos com uma pequena multidão que olhava em silêncio para aquilo que devia ter sido em tempos uma viatura e que agora era um monte de chapa retorcida de cor verde-garrafa. Estávamos já a divagar alegremente sobre a vertente artística destes acidentes e sobre a beleza aterrorizante dos montes de sucata quando o silêncio das restantes pessoas nos começou a incomodar. É que não se ouvia mesmo nada. Resolvemos meter conversa. O António começou: “então, está um frio aqui, não?”. Nada. Alguns assobiavam, outros raspavam as solas dos sapatos no chão, outros esfregavam as mãos, outros observavam meticulosamente a calçada, em suma…..pessoas a conviver. Então percebi que precisávamos de um "desbloqueador de conversa". E então, para grande espanto do António que me considerava tudo menos um intelectual eu disse, num indiscutível rasgo de genialidade: “alguém sabe que a fêmea do louva-a-deus come o macho depois de copular com ele?”. Foi a apoteose. Começaram todos a cumprimentar-nos como se tivéssemos proferido qualquer tipo de senha secreta. Tínhamos sido aceites no grupo. Estávamos integrados. Dividimo-nos em grupos e começámos imediatamente a fazer apostas sobre quanto valeria a carcaça. A noite prometia.


Sofia Trovela

Friday, December 16, 2005

Aceleras

Bom, e atentos à dissertação da tainha, quase nos espalhámos pelo chão quando o autocarro travou ao chegar à rotunda. Saímos ou não? Ritinha era de facto um achado interessante, mas a noite e o frio esperavam-nos, teríamos de abandoná-la… O pensamento é interrompido pelo “vai seguiri” do condutor, apressamo-nos a descer do autocarro, o António cai-me em cima do calcanhar.... merda, o teórico e as suas ideias, só olha para cima e não por onde anda… Continuando, fixo a rotunda, o António também não vê o que eu vejo, está a teorizar sobre a cor vs forma do monumento… Dizia, fixo a rotunda e vejo um carro lá espetado, mais um é incrível…. Não basta a base da "bela" obra escultórica estar já meia descalça, terá de existir sempre um ágil condutor (qual tunning) a acelerar directo à calçada portuguesa. E como portugueses voluntários que somos, vamos ver se o condutor precisa de ajuda... talvez haja feridos...sangue...

MariadoMar

António em acção (mais uma vez)

Ritinha era uma oradora considerável, entre perdigotos e neologismos suspeitos divulgava a sua fé. O silêncio do António era a prova irrefutável da oralidade envolvente da Ritinha. Mas aquilo não era para continuar durante muito. E as últimas palavras da Ritinha desencadearam uma avalanche.

- E tu, quem és tu com este ar de intelectual? – foi o puxar do gatilho para o António começar a disparar.

- Eu? Quem sou eu? Querida sou a razão pura do Kant, sharp and rapid, o sonho do Wilkinson e o pesadelo do Gillette. Sou a navalha do Okham, a espada de Dâmocles. Sou o psichokiller do Bret Eliston Ellis e o Mr. Wolf do Tarantino. Sou um cold blooded filha de puta, ah e um animal na cama.

A parte do Wilkinson era nova, nunca o tinha ouvido.

- Siimm, mas o teu noome? – murmurou a poça da banha que resto da Ritinha derretida.

- Para ti, bebê, chama-me bebêêê... – aquele som gutural do António foi o cúmulo. Tivemos de sair daí e rápido.

Tuesday, December 13, 2005

Visões


Ora, este é o carapau que a Ritinha viu.


(E este é uma tainha, suposta prova dos da má fé)

Sunday, December 11, 2005

Ritinha Grande Mundo

Ainda meio perplexo com as delicadezas do sexo entre animais, entrei no autocarro que o António me indicou com um profético “é este!” que parecia conter muito mais do que apenas estas duas palavrinhas. Momentos depois percebi porquê. Num imenso autocarro vazio, versão harmónio diga-se, estavam bem amontoadas 5 pessoas, todas no último banco, todas juntinhas, como se fizessem parte de uma comitiva governamental qualquer. Como que atraídos por uma força inexplicável convertida num “bora lá” do António fomos avançando, aproveitando os vómitos compulsivos da enorme minhoca mecânica. As caras foram ficando mais nítidas. Decididamente não era nenhuma comitiva governamental. Rapidamente percebemos, não sem um poderoso arrepio na espinha, que agora éramos uma seita. Íamos todos para o mesmo templo, a rotunda. E foi aí que uma voz se elevou dentro da grande minhoca. A minha vida mudou. Conheci a Ritinha Grande Mundo, uma ex-varina convertida em Testemunha da Grande Igreja do Pescado por ter visto um brilho arroxeado no olho de um carapau. Alguns invejosos da sua fé garantiram que o bicho não era um carapau, era uma tainha, e que para mais não estava muito fresca, mas que importa isso? A Ritinha também não era muito “inha”, pesava 130kg e embora se chamasse Grande Mundo nunca tinha saído de Lisboa. Minto, já tinha ido à Brandoa. É assim a vida, as coisas nunca são o que são. É como as maçãs. Muito brilho pouco sabor.

Sofia Trovela

Wednesday, December 07, 2005

Idéas

- Lembras-te, o bebé de Mâcon do Peter Greenaway, em 1993, 122 minutos de ironia e catolicismo à mistura? A cena de violação? Lembras-te? Uma fila infinita de soldados a violar a suposta virgem?

Já estou habituado que ele não cumprimenta as pessoas, ele diz que é uma perda de tempo. O António arde em ideias. Constantemente. Muitos dizem que ele é inesgotável e contagiante. Eu, até agora, só apanhei algumas das suas constipações.

- Humm? Lembras-te?

Pois o filme. Bem tento esquecê-lo. Um horror, duas horas de sofrimento. E o melhor era para vir depois do filme. Quando saímos da cinema encontrámos um bêbado estendido no chão. Primeiro pensámos que estava morto, mas não. O António disse que não era nada e que conhecia o tipo que costumava vender cachorros na esquina. Disse também que não devemos comprar nada dele porque o tipo tirava macacos e não lavava as mãos. Era três de manhã e uns três graus, um frio a rachar, não pudemos deixar o homem ali deitado. O António insistiu que aquilo não era nada, e que o tipo fazia aquilo para passar o tempo, mas eu chamei uma ambulância.

- A ideia da violação não era do Pete. Não é genial? O tipo põe o mundo inteiro a protestar contra uma ideia que nem sequer é dele.
- Então?
- Então o que é? É claro, que se trata de uma idéa.

Já sei, lá vem a teoria das ideias suspensas do António. Ele chama estas ideias idéas, que, muito originalmente, é a correspondente à ideia em grego.

- A coisa estava acontecer em pleno Restauradores. Eu a espera do autocarro e a olhar para os pombos. Os pombos completamente doidos pela malandragem. A praça cheia deles, a fervilhar do desejo. Mas as pombocas não são fáceis – primeiro cortejas meu caro e logo veremos. No meio desta confusão havia um pombo morto. Não devia estar morto há muito tempo, mas já estava frio e rígido. Bastou segurar numa perna e o gajo ficou esticadinho. Podias utilizar como ponteiro, eu ainda apontei para a cede do Mário Soares e para o Hard Rock Café, só para experimentar, tipo pistoleiro, mas aquilo metia-me nojo. Mas aos pombos não. Os gajos rapidamente perceberam que aqui há queque fácil. Os seus circuitos não permitiam por o cortejo completamente ao lado, mas não perderam muito tempo com isso e passaram logo à acção. Dezenas deles à volta da pomba morta, à espera de vez. Fiquei ali a contar. Perdi um autocarro, mas contei 27 a saltarem em cima. Que badalhocos. Mas, o que interesse é a ideia. Quem te garante que o Pete não viu uma cena destas antes de fazer aquela cena do filme. Se assim for, a ideia é de quem? É de quem a apanhar. Eu digo-te, as ideias preexistem-nos, estão espalhadas nas ruas. Há ainda quem fala na genialidade do Pete. Génios são os pombos, grandes porcos. Estás pronto?

- Aonde é que vamos afinal?

- Praça de 25 de Abril, uma rotunda a meio caminho entre o Expo e a Sta. Apolónia com um monumento horrendo. Traz roupa quente, durante a noite vai fazer frio.

Friday, December 02, 2005

António

Depois há o papel. Um pequeno pedaço sofrido, rasgado. Foi a miúda que o deixou de cair quando embateu na minha perna.

'Os meus sonhos são MEUS... mas apenas enquanto a noite é infinita. Na alvorada escondem-se, não os recupero, são peças do meu puzzle que não volto a rever ou revejo noutras cores? Não me lembro... Os únicos que resistem são os que ganham vida quando estou acordada, e esses encontram-me sempre, mesmo depois de 1001 noites, não os perco… mas alguns talvez devesse.´
Maria do Mar


Será para mim? Uma mensagem? Não sei, mas gostei como ela me toucou. É pena que havia gesso entre nós. Mas uma camadinha de nada não abafa da emoção do primeiro toque.

Hoje vai cá o António e quer sair comigo. Eu disse-lhe que tenho a perna em gesso, mas ele não abandona facilmente as suas ideias. Ele diz que não preciso de andar muito. Pediu-me para preparar as cadeiras de praia e a minha câmara de vídeo. Anda obcecado com uma ideia para o concurso de oneminute. Isto é um concurso de curtas-metragens aberto a qualquer um, onde os filmes têm de ter um minuto de duração. Ele diz que conhece um cruzamento onde todas as noites de sexta ou de sábado há acidentes aparatosos, diz que vamos acampar à espera dos gajos. E quando batem, nós atacamos com a câmara em punho. Eu disse que isto vai acabar mal. É que estes gajos são os de tunning e que provavelmente não gostam ter audiência quando destroem as suas criações. Ele disse que tem tudo controlado. Bem, sobre as situações que o António diz que controla, podia contar muitas histórias. Disse-me também para preparar o termo com Glühwein. É uma espécie de vinho cozido com especiarias e com açúcar. Gosto. Estão tocar na campainha, deve ser o António.

A verdade é que...

A verdade é que a partir daquele momento deixei de viver.. sou um simples obsecado, maniaco e sem coragem.. Porque é que até agora ainda não me levantei? Só sei sonhar acordado e esqueci-me da realidade.. E este sonho nem sequer é meu.. Talves seja melhor decidir o que quero para mim...

Anonymous

hoje vi a jo

hoje vi a jo! trocamos olhares... sera ela real ou uma simples ilusao? jo liberta te e preenche os meus espaços vazios! "pancada ou panqueca"? sera um bom titulo para o livro?....

Anonymous

finalmente acordei

finalmente acordei!!! tudo não passou de um sonho, quer dizer um pesadelo! a minha perna está inteira, a jo nao tem assim tanto poder sobre mim..ou tera? não paro de pensar nela. Ela tem um ar inocente e ao mesmo tempo aquele ar sedutor! jo quem és? o que queres de mim?

anonymous