Idéas
- Lembras-te, o bebé de Mâcon do Peter Greenaway, em 1993, 122 minutos de ironia e catolicismo à mistura? A cena de violação? Lembras-te? Uma fila infinita de soldados a violar a suposta virgem?
Já estou habituado que ele não cumprimenta as pessoas, ele diz que é uma perda de tempo. O António arde em ideias. Constantemente. Muitos dizem que ele é inesgotável e contagiante. Eu, até agora, só apanhei algumas das suas constipações.
- Humm? Lembras-te?
Pois o filme. Bem tento esquecê-lo. Um horror, duas horas de sofrimento. E o melhor era para vir depois do filme. Quando saímos da cinema encontrámos um bêbado estendido no chão. Primeiro pensámos que estava morto, mas não. O António disse que não era nada e que conhecia o tipo que costumava vender cachorros na esquina. Disse também que não devemos comprar nada dele porque o tipo tirava macacos e não lavava as mãos. Era três de manhã e uns três graus, um frio a rachar, não pudemos deixar o homem ali deitado. O António insistiu que aquilo não era nada, e que o tipo fazia aquilo para passar o tempo, mas eu chamei uma ambulância.
- A ideia da violação não era do Pete. Não é genial? O tipo põe o mundo inteiro a protestar contra uma ideia que nem sequer é dele.
- Então?
- Então o que é? É claro, que se trata de uma idéa.
Já sei, lá vem a teoria das ideias suspensas do António. Ele chama estas ideias idéas, que, muito originalmente, é a correspondente à ideia em grego.
- A coisa estava acontecer em pleno Restauradores. Eu a espera do autocarro e a olhar para os pombos. Os pombos completamente doidos pela malandragem. A praça cheia deles, a fervilhar do desejo. Mas as pombocas não são fáceis – primeiro cortejas meu caro e logo veremos. No meio desta confusão havia um pombo morto. Não devia estar morto há muito tempo, mas já estava frio e rígido. Bastou segurar numa perna e o gajo ficou esticadinho. Podias utilizar como ponteiro, eu ainda apontei para a cede do Mário Soares e para o Hard Rock Café, só para experimentar, tipo pistoleiro, mas aquilo metia-me nojo. Mas aos pombos não. Os gajos rapidamente perceberam que aqui há queque fácil. Os seus circuitos não permitiam por o cortejo completamente ao lado, mas não perderam muito tempo com isso e passaram logo à acção. Dezenas deles à volta da pomba morta, à espera de vez. Fiquei ali a contar. Perdi um autocarro, mas contei 27 a saltarem em cima. Que badalhocos. Mas, o que interesse é a ideia. Quem te garante que o Pete não viu uma cena destas antes de fazer aquela cena do filme. Se assim for, a ideia é de quem? É de quem a apanhar. Eu digo-te, as ideias preexistem-nos, estão espalhadas nas ruas. Há ainda quem fala na genialidade do Pete. Génios são os pombos, grandes porcos. Estás pronto?
- Aonde é que vamos afinal?
- Praça de 25 de Abril, uma rotunda a meio caminho entre o Expo e a Sta. Apolónia com um monumento horrendo. Traz roupa quente, durante a noite vai fazer frio.
Já estou habituado que ele não cumprimenta as pessoas, ele diz que é uma perda de tempo. O António arde em ideias. Constantemente. Muitos dizem que ele é inesgotável e contagiante. Eu, até agora, só apanhei algumas das suas constipações.
- Humm? Lembras-te?
Pois o filme. Bem tento esquecê-lo. Um horror, duas horas de sofrimento. E o melhor era para vir depois do filme. Quando saímos da cinema encontrámos um bêbado estendido no chão. Primeiro pensámos que estava morto, mas não. O António disse que não era nada e que conhecia o tipo que costumava vender cachorros na esquina. Disse também que não devemos comprar nada dele porque o tipo tirava macacos e não lavava as mãos. Era três de manhã e uns três graus, um frio a rachar, não pudemos deixar o homem ali deitado. O António insistiu que aquilo não era nada, e que o tipo fazia aquilo para passar o tempo, mas eu chamei uma ambulância.
- A ideia da violação não era do Pete. Não é genial? O tipo põe o mundo inteiro a protestar contra uma ideia que nem sequer é dele.
- Então?
- Então o que é? É claro, que se trata de uma idéa.
Já sei, lá vem a teoria das ideias suspensas do António. Ele chama estas ideias idéas, que, muito originalmente, é a correspondente à ideia em grego.
- A coisa estava acontecer em pleno Restauradores. Eu a espera do autocarro e a olhar para os pombos. Os pombos completamente doidos pela malandragem. A praça cheia deles, a fervilhar do desejo. Mas as pombocas não são fáceis – primeiro cortejas meu caro e logo veremos. No meio desta confusão havia um pombo morto. Não devia estar morto há muito tempo, mas já estava frio e rígido. Bastou segurar numa perna e o gajo ficou esticadinho. Podias utilizar como ponteiro, eu ainda apontei para a cede do Mário Soares e para o Hard Rock Café, só para experimentar, tipo pistoleiro, mas aquilo metia-me nojo. Mas aos pombos não. Os gajos rapidamente perceberam que aqui há queque fácil. Os seus circuitos não permitiam por o cortejo completamente ao lado, mas não perderam muito tempo com isso e passaram logo à acção. Dezenas deles à volta da pomba morta, à espera de vez. Fiquei ali a contar. Perdi um autocarro, mas contei 27 a saltarem em cima. Que badalhocos. Mas, o que interesse é a ideia. Quem te garante que o Pete não viu uma cena destas antes de fazer aquela cena do filme. Se assim for, a ideia é de quem? É de quem a apanhar. Eu digo-te, as ideias preexistem-nos, estão espalhadas nas ruas. Há ainda quem fala na genialidade do Pete. Génios são os pombos, grandes porcos. Estás pronto?
- Aonde é que vamos afinal?
- Praça de 25 de Abril, uma rotunda a meio caminho entre o Expo e a Sta. Apolónia com um monumento horrendo. Traz roupa quente, durante a noite vai fazer frio.

2 Comments:
emprestas-me o livro? na sexta?
Cs.
Sobre obscuridade nada sei, eu costumo escrever sobre o que vejo. Contudo, há muitas maneiras de ver o mundo, e.g.: 'Sei lá' (Margarida Rebelo Pinto) vs. 'Animal Tropical' (Pedro Juan Gutiérres), ah, e ainda 'Memória das minhas putas tristes' (Gabriel García Márquez)
Aconselho vivamente a leitura dos úlitmos dois!
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