Ritinha Grande Mundo
Ainda meio perplexo com as delicadezas do sexo entre animais, entrei no autocarro que o António me indicou com um profético “é este!” que parecia conter muito mais do que apenas estas duas palavrinhas. Momentos depois percebi porquê. Num imenso autocarro vazio, versão harmónio diga-se, estavam bem amontoadas 5 pessoas, todas no último banco, todas juntinhas, como se fizessem parte de uma comitiva governamental qualquer. Como que atraídos por uma força inexplicável convertida num “bora lá” do António fomos avançando, aproveitando os vómitos compulsivos da enorme minhoca mecânica. As caras foram ficando mais nítidas. Decididamente não era nenhuma comitiva governamental. Rapidamente percebemos, não sem um poderoso arrepio na espinha, que agora éramos uma seita. Íamos todos para o mesmo templo, a rotunda. E foi aí que uma voz se elevou dentro da grande minhoca. A minha vida mudou. Conheci a Ritinha Grande Mundo, uma ex-varina convertida em Testemunha da Grande Igreja do Pescado por ter visto um brilho arroxeado no olho de um carapau. Alguns invejosos da sua fé garantiram que o bicho não era um carapau, era uma tainha, e que para mais não estava muito fresca, mas que importa isso? A Ritinha também não era muito “inha”, pesava 130kg e embora se chamasse Grande Mundo nunca tinha saído de Lisboa. Minto, já tinha ido à Brandoa. É assim a vida, as coisas nunca são o que são. É como as maçãs. Muito brilho pouco sabor.
Sofia Trovela
Sofia Trovela

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