O carro
Corremos até ao carro. Bem, se calhar “correr” não é o termo mais certo, talvez “andar apressado” seja a expressão mais realista, porque a noite estava fria e também não éramos propriamente do INEM, ainda podíamos fazer uma entorse, que diabo! Quando chegámos às imediações da ocorrência deparámos com uma pequena multidão que olhava em silêncio para aquilo que devia ter sido em tempos uma viatura e que agora era um monte de chapa retorcida de cor verde-garrafa. Estávamos já a divagar alegremente sobre a vertente artística destes acidentes e sobre a beleza aterrorizante dos montes de sucata quando o silêncio das restantes pessoas nos começou a incomodar. É que não se ouvia mesmo nada. Resolvemos meter conversa. O António começou: “então, está um frio aqui, não?”. Nada. Alguns assobiavam, outros raspavam as solas dos sapatos no chão, outros esfregavam as mãos, outros observavam meticulosamente a calçada, em suma…..pessoas a conviver. Então percebi que precisávamos de um "desbloqueador de conversa". E então, para grande espanto do António que me considerava tudo menos um intelectual eu disse, num indiscutível rasgo de genialidade: “alguém sabe que a fêmea do louva-a-deus come o macho depois de copular com ele?”. Foi a apoteose. Começaram todos a cumprimentar-nos como se tivéssemos proferido qualquer tipo de senha secreta. Tínhamos sido aceites no grupo. Estávamos integrados. Dividimo-nos em grupos e começámos imediatamente a fazer apostas sobre quanto valeria a carcaça. A noite prometia.
Sofia Trovela
Sofia Trovela

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