Tuesday, December 27, 2005

A obra

Estava eu na minha cama rodeado de uma pilha de papéis quando o António, o maior intelectual que conheci tocou à porta. Bem pronto, não era uma pilha, eram três e o António também não tocou. Na verdade, ia desfazendo o botão da campainha com uma tentativa tresloucada de tocar Another Brick in the Wall dos Pink Floyd em “campainhês”. Tenho que reconhecer que sempre foi melhor do que quando ensaiou a Aída do Verdi durante quase um mês, ensaios que acabaram de uma forma dramática com um curto circuito que lhe deixou os cabelos literalmente em pé e que rebentou com os fusíveis do meu andar, causando o desespero da minha vizinha que estava a ver o último episódio de uma novela que devia ser muito interessante. Pelo menos a avaliar pelos gritos que ouvi devia ser mesmo muito interessante. Fiquei a pensar que devia ter visto a novela. O António vinha enrubescido, como se os plátanos se reflectissem na sua cara de uma forma quentinha e duradoura. Reconheci-lhe as cores do amor, a perfeição do sentimento, a honestidade das pupilas dilatadas. Ah o amor, fulgor que tudo embeleza e ofusca, que nos faz voar em qualquer vazio como gaivotas, que nos faz correr como garranos selvagens em qualquer campo disponível na nossa imaginação….
Estava eu perdido nas minhas considerações quando ouvi ao longe o António: “olha lá, andaste a fumar, parece que estás meio parvo!”. Sacudi um pouco a cabeça para colocar as ideias no lugar e sentei-me. Então ele disse-me a coisa mais inesperada do mundo: “Preciso que me escrevas um poema de amor para a Ritinha”. Ia-me dando uma coisa má! Eu, um poema de amor para uma peixeira de 130 kg? Mais depressa comia uma embalagem de Nestum de figo! Mas os olhos tristes do António revelaram a sua impotência em causa própria. O maior intelectual que conheci pessoalmente estava embatucado, empastelado, atascado, entupido de amor. E precisava de mim. E foi assim que surgiu a minha primeira obra prima, o quarto papel que hoje guardo emoldurado numa mica de dossier em cima da minha guitarra eléctrica. Rezava assim:


EM BUSCA DE TI

Tal como uma onda
Beijo as praias à tua procura
Tal como o vento
Chamo por ti
Tal como a chuva
Te acaricio
Tal como a trovoada
Te assusto
Tal como o sol
Te faço florescer
Tal como um cego
Tu não me vês
Tal como um mudo
Eu não te chamo
Tal como o sol e a lua
Estamos sempre separados


Bem, ainda me lembro da confusão! O António pensou que lhe estava a agoirar o namoro. Lá lhe expliquei que não era nada disso mas que estava a tentar explicar como era o amor entre almas gémeas que habitam os lados opostos da vida. Ele florescia à noite, nos bares e tascas rascas da cidade, ela nascia de madrugada nos pregões de uma Lisboa que amanhece. É como eu sempre disse. ligações iónicas, átomos de cargas contrárias atraiem-se.

Sofia Trovela

2 Comments:

Blogger mecoto said...

quem é este gajo/a que apareceu de nada, e o outro tipo, o xxxx, vai apodrecer na rotunda quando descongelar...? e o joaquinzinho, o amante da ritinha...? mas lindo poema!

3:23 AM  
Anonymous Anonymous said...

este é o XXXX, esperavas que ficasse na rotunda para sempre?:)
Sofia Trovela

3:46 AM  

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